terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Nasci com os pés no mar


 Nasci com os pés no mar e a cabeça encostada à lua.

Cresci com o sabor a sal  no sangue e o sol como amigo íntimo. Os meus sonhos sempre  cheios de florestas tropicais, cheiro a terra molhada, cascatas batendo forte nas rochas, terras distantes com cheiros e cores singulares.

Parti para longe para realizar estes sonhos. O deslumbramento foi tal que dilatou o ser. O calor de sentir na pele a doçura escaldante da mescla de cores, cheiros e sabores que pairava naquela terra distante, abençoada pelos deuses do fogo. Ao longe, o som do rugir das feras na selva, como presságios duma vida livre e cheia de mistérios. 

Sonhava ser grande, partir nos meus sonhos e descobrir o mundo.  E parti. E descobri. 

Sentei-me à janela da vida. Olhei para dentro de mim. Num dia de sol escaldante que derretia as pedras das calçadas, deixei que os sonhos converssassem comigo. 

Viajei para lugares desconhecidos, para além dos céus e da terra. O mundo estava escondido dentro de mim. 

Deixei-me levar. 

Desse parto prematuro, nasciam as viagens mais belas, as imaginações mais mirabolantes. 

Alcançaria eu essas bolas de sabão feitas de sonhos que se derretiam no ar ao mínimo impacto? 

Um dia, voltei à terra que me viu nascer. Voltei a molhar os pés na água gélida das águas parturientes e encostei de novo a cabeça à lua. 

Escrevi. 

Construí os meus castelos de areia à beira mar na minha praia. 

Escrevi tanto! Deixei a minha alma falar ao sabor da tinta sangue que me saía do peito. O sangue era tanto que manchava as páginas do livro. De tal maneira, que eu já não sabia se as palavras escritas eram minhas ou de alguém ou algo exterior a mim. 

Do sonho de escrever um livro, nasceu   um filho. 

Com um filho em carne e osso - sonho maior dos sonhos-  já tinha sido agraciada. 

Faltava plantar a árvore. 

A árvore que me daria sombra e frutos da imaginação, ramos para me ligar ao mais alto e raízes na terra para escrever o livro dos " sonhos que nasceram primeiro".

Um convite a entrar nesse mundo, o meu mundo de poesia e cor. 

Uma viagem inesquecível pelos meandros do ser. 

Porque, como dizia o poeta :"o sonho comanda a vida". 

Os sonhos nascem sempre primeiro. Como embriões, crescem dentro de nós e depois nascem,  e transformam-se em realidade. É só acreditar. Vamos sonhar? 







segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Cogito - a vida


Escrevo cheia e vazia de palavras. Avassalada por um mundo a que não pertenço, nesta loucura frenética de questões sem resposta.

Questiono a existência: realidade ou sonho colectivo?

Mas o mundo continua a girar, alheio às questões existenciais que me assolam o peito. Cada dia, cada momento é um desafio, uma lição. E o tempo cada vez corre mais célere. Não consigo apanhá-lo. A verdade é que corremos depressa do colo da vida para os braços da morte! 

Resta a compaixão dos anjos, a bravura dos valentes que não desarmam na frente desta dura batalha. 

Deixo-me levar pela inocência dum sorriso, dum olhar de criança...quero ser criança! 


terça-feira, 27 de outubro de 2020

Um Novo Mundo


 Estávamos no ano de 2040. As ruas mais desertas, o ar mais leve. A poluição  tinha desaparecido para dar lugar ao chilrear dos pássaros. 

Os últimos 20 anos tinham sido tempos únicos e muito estranhos.


O que outrora tinha sido, já não voltaria a ser.


Agora com 80 anos, passeavam no jardim 

- Avó, conta-me como era o mundo antes de ter nascido.

- Querida, quando nasceste, as pessoas foram obrigadas a esconder os rostos com

uma máscara. Os abraços e os beijos ficaram esquecidos em baús à espera de serem libertados. Os sorrisos e as emoções só através olhar


nunca deixei de te abraçar e beijar, meu amor!


- Avó, para mim, nunca foi estranho! Só conheci rostos escondidos em máscaras. 

Sempre foi normal para mim!

- Estou feliz, minha querida.  Depois destes anos, o vírus foi finalmente dessiminado. Os homens entenderam que todos somos iguais e estamos unidos.

- Sim, avó, percebo que  para comunicar só precisamos do coração. O ar hoje é leve e puro e respiramos sem máscaras. Nem físicas nem mentais. Os nossos olhos são o reflexo das nossas almas e nunca tínhamos reparado nisso!

- Que maravilha! Estamos num mundo novo!

- Sim, querida, felizmente ainda estou viva para o presenciar! Sabes como será este belo mundo novo?

Era um tempo estranho e único...

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Há um vírus

 


Há um vírus...

 Que nos corroi a alma...

Que nos paralisa os sentidos...

Há um vírus...

Que nos tranca em prisões, que nos proibe os abraços, os beijos

Que nos faz esquecer os afectos...

Há um vírus...

Que nos confunde, que nos afasta e nos separa...

Há um vírus...

Que nos ameaça de uma morte solitária...

Há um vírus...

Que nos quer sufocar, nos cortar a respiração...

Há um vírus... O vírus do Medo...


Há um vírus...

Silencioso, que espera pacientemente dentro de cada um de nós...

Prepara-se, espera a hora em que todos estejamos prontos para o acolher...

Nasce e cresce silencioso nas almas despertas, de quem o reconhece...

Há um vírus...

Que espera para nos renovar

Silencioso, prepara-se...para nos fazer abraçar de novo, nos beijar...

Há um vírus...

Que nos quer juntar, não afastar...

Um vírus luminoso, radiante de alegria e paz...

Há um vírus...

Que nos quer devolver a Natureza pura, o respirar...

Esse vírus... é o vírus do Amor!


sábado, 19 de setembro de 2020

Prenúncio de Outono

 



Riem-se as gárgulas à passagem dos homens,

 soltam gargalhadas ensurdecedoras

engasgam-se quando engolem a água que cai do céu,  bocas abertas, sedentas 

Os risos transformam-se num som indefinido, medonho, perturbador, trocista

Ao longe, as sereias entoam o cântico de despedida, sons que se esvaiem ao longe nas ondas do mar

Os pássaros há muito que viajaram para longe, indiferentes aos homens presos em gaiolas dentro de si mesmos

Prenúncio de Outono?

Agarro-me ao Ser que existe em mim! 

Sou apenas uma miragem de um mar esquecido no Verão, algures num barco a vaguear, perdido, nas ondas! 


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Esquecida de mim

 


Fiquei esquecida de mim

Nos meandros do tempo ficaram pedaços de mim, as memórias do que fui congelaram na frieza da vida

Ficaram apenas as cinzas de vidas passadas e presentes numa caixa de cristal, lançada nas profundezas de um lago maior, lago azul e profundo onde todas as memórias são sepultadas

Onde ficámos? O que éramos? O que nos tornámos, enfiados nestas armaduras de ferro que nos aprisionam, armas de defesa das nossas crianças, tímidas, cheias de medo, encolhidas lá no fundo de nós mesmos? Porque nos morremos antes do tempo?

Em vão quero resgastar-me...


Bastava agora que te sentasses comigo à beira daquele lago das memórias perdidas, ouvisses o bater do meu coração e lesses a minha alma...sentisses o meu mundo e escutasses tudo o que tenho para te dizer...olhasses no mais fundo dos meus olhos, onde habita a criança amedrontada e a solidão que me avassala se transformaria numa borboleta colorida e alegre, voando ao vento!


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Coração de cristal


 

Nas margens do rio, entrelaçaram as mãos num beijo apaixonado

Perante esta imagem, as águas verdes e cantantes sorriram e espalharam-se, tomando a forma de um coração de cistal, tocando e banhando os pés dos amantes. Um calafrio imenso inundou  seus corpos terrenos!

Atónitos, seus olhos se rasgaram, olhos de avatares... tornaram-se divinos...eram agora anjos eternizados para sempre numa pedra, onde tantos outros anjos se imortalizaram...

Restaria apenas essa imortalidade, aquele momento deixado para trás num tempo banhado pelas águas quentes do amor eterno!