quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Há um vírus

 


Há um vírus...

 Que nos corroi a alma...

Que nos paralisa os sentidos...

Há um vírus...

Que nos tranca em prisões, que nos proibe os abraços, os beijos

Que nos faz esquecer os afectos...

Há um vírus...

Que nos confunde, que nos afasta e nos separa...

Há um vírus...

Que nos ameaça de uma morte solitária...

Há um vírus...

Que nos quer sufocar, nos cortar a respiração...

Há um vírus... O vírus do Medo...


Há um vírus...

Silencioso, que espera pacientemente dentro de cada um de nós...

Prepara-se, espera a hora em que todos estejamos prontos para o acolher...

Nasce e cresce silencioso nas almas despertas, de quem o reconhece...

Há um vírus...

Que espera para nos renovar

Silencioso, prepara-se...para nos fazer abraçar de novo, nos beijar...

Há um vírus...

Que nos quer juntar, não afastar...

Um vírus luminoso, radiante de alegria e paz...

Há um vírus...

Que nos quer devolver a Natureza pura, o respirar...

Esse vírus... é o vírus do Amor!


sábado, 19 de setembro de 2020

Prenúncio de Outono

 



Riem-se as gárgulas à passagem dos homens,

 soltam gargalhadas ensurdecedoras

engasgam-se quando engolem a água que cai do céu,  bocas abertas, sedentas 

Os risos transformam-se num som indefinido, medonho, perturbador, trocista

Ao longe, as sereias entoam o cântico de despedida, sons que se esvaiem ao longe nas ondas do mar

Os pássaros há muito que viajaram para longe, indiferentes aos homens presos em gaiolas dentro de si mesmos

Prenúncio de Outono?

Agarro-me ao Ser que existe em mim! 

Sou apenas uma miragem de um mar esquecido no Verão, algures num barco a vaguear, perdido, nas ondas! 


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Esquecida de mim

 


Fiquei esquecida de mim

Nos meandros do tempo ficaram pedaços de mim, as memórias do que fui congelaram na frieza da vida

Ficaram apenas as cinzas de vidas passadas e presentes numa caixa de cristal, lançada nas profundezas de um lago maior, lago azul e profundo onde todas as memórias são sepultadas

Onde ficámos? O que éramos? O que nos tornámos, enfiados nestas armaduras de ferro que nos aprisionam, armas de defesa das nossas crianças, tímidas, cheias de medo, encolhidas lá no fundo de nós mesmos? Porque nos morremos antes do tempo?

Em vão quero resgastar-me...


Bastava agora que te sentasses comigo à beira daquele lago das memórias perdidas, ouvisses o bater do meu coração e lesses a minha alma...sentisses o meu mundo e escutasses tudo o que tenho para te dizer...olhasses no mais fundo dos meus olhos, onde habita a criança amedrontada e a solidão que me avassala se transformaria numa borboleta colorida e alegre, voando ao vento!


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Coração de cristal


 

Nas margens do rio, entrelaçaram as mãos num beijo apaixonado

Perante esta imagem, as águas verdes e cantantes sorriram e espalharam-se, tomando a forma de um coração de cistal, tocando e banhando os pés dos amantes. Um calafrio imenso inundou  seus corpos terrenos!

Atónitos, seus olhos se rasgaram, olhos de avatares... tornaram-se divinos...eram agora anjos eternizados para sempre numa pedra, onde tantos outros anjos se imortalizaram...

Restaria apenas essa imortalidade, aquele momento deixado para trás num tempo banhado pelas águas quentes do amor eterno!


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Liberta-me



Deixa-me respirar! Liberta-me destas máscaras, destas armaduras que colocaram sobre meu rosto!
Quero respirar!
Retirem-me estas amarras, estes grilhões contundentes que me perfuram a mente e me atrofiam a alma!
Quero libertar-me destas grades onde me confinaram quando nasci!
Quero ser de novo borboleta, voar pelos ares livre e feliz!
Onde está o meu Mundo, o meu planeta perdido ? Onde estou agora?
Que loucura é esta que me rodeia?
Onde estou eu, pequenina e inocente? Onde ficou a minha criança esquecida e adormecida?
Liberta-me de mim!...Liberta-me desta carapaça espessa que me colocaram!
Serei apenas a essência duma flor, um poema nos olhos duma criança!

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Pressinto-te


Pressinto-te em cada alvorecer, em cada pôr do sol
Pressinto-te em cada onda do mar, em cada grão da areia da praia
Pressinto-te em cada folha de árvore que beija o céu
Pressinto-te no buzio da praia que traz a tua música de muito longe
Pressinto-te no olhar duma criança, na brisa fresca que me toca suavemente os cabelos ao fim da tarde
Pressinto-te em cada gota de água que se espreguiça entre a chuva, o mar, o rio, o lago e que se funde na tua lágrima que teima em cair, desfeita em amor e emoção
Pressinto-te num olhar terno e meigo, no sorriso fresco e alegre que encontro em cada esquina
Pressinto-te num abraço quente, apertado, num beijo apaixonado
Pressinto-te no silêncio e nas notas de música, nas cascatas e nas fontes
Pressinto-te nas nuvens e nas aves que as sobrevoam
Pressinto-te no todo que és e também no vazio
Na luz e na sombra...

Pré-sinto-TE
Sinto-TE

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Acorda-me...


Acorda-me quando tudo tiver acabado...
Deixa-me ficar adormecida neste meu sonho,
neste meu sono, dentro desta minha concha,
onde tudo é paz e silêncio...
Não quero sair...enquanto cá fora dispararem as armas do ódio...
enquanto as máscaras não cairem...
deixa-me dormir no meu sonho, no meu mundo!...
Deixa apenas entrar por entre estas frestas, a alegria, a felicidade, as ondas de Luz vagabundas que ainda não encontraram o seu asilo, o seu lar...
Acorda-me devagar, docemente, num beijo...quando tudo tiver acabado...